Difusão
do cinema é indispensável para o processo
democratizante
Por Renata Moraes
19/05/2005
São Paulo (AUN
- USP) - Eduardo Morettin, professor da Universidade
de São Paulo, revela que a importância
do cinema firma-se pela “necessidade do ser humano
de gravar, filmar, fotografar sua experiências,
utilizando novas tecnologias para construir a memória”.Nas
palavras da estudante Juliana Fortuna, ao citar o cineasta
curitibano Fernando Severo, “ O cinema é
uma arte que testemunha a passagem humana pela terra”.
Por tamanha relevância para a cultura, história
e expressão da sociedade, a preocupação
com a democratização dessa arte ,que também
é um meio de comunicação, tem tido
destaque e conta com projetos desenvolvidos por diferentes
grupos, desde os vinculados a governos, ONGS até
a instituições privadas.
Em Curitiba, foi criado
há dois anos o Projeto Olho Vivo (divulgado por
Juliana, aluna da Puc-Curitiba), que se tornou modelo
de ensino de cinema. “Agrupando pessoas de níveis
culturais e sociais diferentes, mas que têm em
comum, o amor pela arte”. A sétima arte,
como a chamam, é ensinada através da alfabetização
da linguagem audiovisual. O projeto conta com curso
de realização de vídeo, roteiro,
produção de documentários, focando
em temas não muito divulgados, como a vida dos
catadores de papel e negros na cidade de Curitiba. No
entanto é preciso participar de uma entrevista
seletiva que avalia o nível de interesse para
integrar esse grupo de alunos privilegiados: as vagas
são poucas diante da procura. Na semana anterior
ao Congresso o Projeto conseguiu o patrocínio
da Petrobrás. Com maior verba é mais fácil
trabalhar em pró do que acreditam, isso é,
“que o cinema permite que as pessoas estejam inseridas
no mundo globalizado”. O escasso apoio por parte
das empresas brasileiras é uma crítica
que a jovem estudante faz, afirmando que “falta
uma mentalidade de disseminar cultura”.
Outra experiência
interessante está acontecendo em Campinas. O
MIS(Museu de Imagem e Som) e o Cine Paradiso, criado
em 1983, são uma alternativa ao circuito norteado
por uma política exclusivamente de mercado. Na
cidade existem 45 cinemas, todos em shoppings e multiplex.
“Os sobreviventes”,
como são chamados em alusão às
dificuldades que enfrentam para continuar existindo,
trazem para a cidade filmes que o grande circuito não
exibe, como aconteceu em 2004 com “Entreatos”
e “Peões”. Funcionam em espaço
privado, não geram lucros, mas são referência
cultural. A única sala do cinema, no centro da
cidade, tem 89 lugares. No acervo 450 filmes que fazem
parte da história do Brasil, fotografias e vídeos.
Ultrapassando os limites
regionais, o Cine Viagem Latino é outro projeto
de democratização, circulação
e formação de público diferenciado.
Pretende criar uma rede entre a produção
e o público de um circuito cinematográfico
alternativo. Cynthia dos Santos, da Universidade de
São Paulo, é uma das idealizadoras da
meta de ir de carro a diversas universidades latino-americanas
para exibições de filmes brasileiros e
mapeamento da produção independente local.
Integrante e criadora da agência de produções
Brazuca, promove sessões de filmes em lugares
alternativos, como escolas, praças e prisões.
Como foi enfatizado durante
o encontro, “um dos interesses da democracia é
aumentar a cultura do povo. O cinema é uma forma
de comunicação e difundi-lo é um
processo democratizante”.
O novo cinema documental
argentino
Ana Maria Amado, pesquisadora
e professora da Universidade de Buenos Aires, foi a
primeira palestrante a expor seus trabalhos no grupo
que discutia como democratizar a Comunicação
no Cinema e no Vídeo. Ressaltou a virtude historiadora
do filme, não porque este se ocupe de uma narrativa
histórica precisa, mas porque ao resgatar realidades
vividas torna-se objeto de reconstrução
de memória.
Essa visão do
cinema como algo presente no “coração
do íntimo e do coletivo” está vinculada
à experiência do cinema experimental argentino
da década de 90, tipo de produção
documental, que se aborda dois campos marcantes que
se cruzam: social e político. Essa geração
de cineastas é em grande parte formada pelos
filhos dos sobreviventes ou militantes mortos durante
a ditadura militar no país. Com a abertura política
vieram testemunhar o que aconteceu com as vítimas,
o que para a estudiosa consiste, muitas vezes, “num
discurso mais afetivo que político”.
Foram exibidos durante
a palestra trechos dos filmes “El tiempo y la
sangre”, de Alexandra Almirón, e “Encontrando
a Victor”,de Natália Bruste, que enfoca
a conversa inquisitiva dessa jovem com sua mãe
em busca de respostas para ajudá-la a entender
o que aconteceu com seu pai.
Ana Maria aponta uma
relação entre duas gerações:
“Uma comprometida com a luta, outra com a memória”
Os atuais documentaristas protagonizam um gesto poético
e político, para ela.
Esses relatos estão
acontecendo em vários países e diferentes
artes. Ana Maria afirma que o cinema é a mais
democrática das artes, por isso é necessário
que existam políticas públicas(por parte
do governo e das instituições) que facilitem
o acesso à produção, sendo esse
o primeiro passo para a democratização
cinematográfica. Isso já está acontecendo
na Argentina, onde começa a surgir uma circulação
alternativa para essa produção nacional:
palestras, escolas, festivais foram os espaços
encontrados para ampliar o alcance desse circuito cultural
que enfrenta grandes barreiras de distribuição.
Fonte: Site Agência
Universitária de Notícias
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